[MACHISMO DESESTRUTURAL, Camila E.] Quando a experiência deixa de ser silêncio

 


Resenha: Machismo Desestrutural parte de uma operação literária bastante definida: transformar experiências de violência, silenciamento e submissão em matéria de elaboração. O próprio conceito que dá título ao livro desloca a discussão do machismo como estrutura social para aquilo que essa estrutura produz no corpo e na subjetividade de quem a atravessa: desorganização psíquica, emocional, afetiva e material. A autora escreve a partir dessa fissura, mas não se limita ao relato. A experiência pessoal é constantemente colocada em relação com a história de outras mulheres, atravessando gerações — da avó à mãe, da própria autora à filha.

A organização do livro acompanha esse movimento. Em vez de construir uma narrativa contínua, a obra se compõe de textos breves, poemas, cenas, diálogos, listas, registros pessoais, dados estatísticos e comentários que interrompem ou retomam determinados assuntos. O que interessa à autora não é apenas afirmar que existe uma educação desigual, mas mostrar como ela se incorpora antes mesmo que possa ser reconhecida como violência.

O livro amplia seu campo de observação. As experiências pessoais passam a dialogar com situações familiares, relações amorosas, maternidade, trabalho, política, sexualidade e espaços públicos. O texto alterna a primeira pessoa e pequenas cenas protagonizadas por outras mulheres, como se a subjetividade da autora funcionasse também como lugar de escuta. A avó ocupa posição importante nesse movimento: seus relatos não aparecem apenas como memória familiar, mas como uma espécie de genealogia da violência, permitindo perceber continuidades entre formas de opressão de diferentes épocas.

A obra não permanece restrita ao campo da memória. Em determinados momentos, a autora interrompe a sequência literária para introduzir dados sobre feminicídio, estupro, violência contra mulheres e subnotificação. Essa escolha muda temporariamente o regime de leitura: aquilo que vinha sendo apresentado como experiência individual passa a ser recolocado dentro de uma dimensão coletiva. A transição é deliberadamente incômoda. O testemunho deixa de ser apenas uma história particular e passa a disputar espaço com os números que dimensionam o fenômeno.

Na parte final, essa reconstrução ganha ainda uma dimensão espiritual e simbólica. A autora questiona formas religiosas e representações que colocam o masculino no centro, buscando uma espiritualidade em que o feminino não seja apresentado como complemento ou polo secundário. O gesto é coerente com o movimento geral do livro: retirar o centro de onde ele sempre esteve e experimentar outras formas de nomear a própria existência. O encerramento em “Gata Fugeira” condensa essa escolha ao transformar a fuga do patriarcado não em destino definido, mas em movimento em direção à subjetividade, ao desejo, à criação, às mulheres e à própria vida.

Machismo Desestrutural encontra sua unidade justamente na diversidade de formas que utiliza para falar de uma mesma questão: o que acontece com uma mulher quando passa a reconhecer os mecanismos que durante muito tempo organizaram sua vida contra ela? A resposta não aparece como conclusão pronta. Ela vai sendo construída pela própria composição do livro, que começa olhando para as marcas recebidas e termina procurando espaço para uma existência que não precise mais se organizar a partir delas.

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Capa: brochura
Páginas: 152
Estilo: poesia, prosa poética, literatura autobiográfica, escrita feminista contemporânea
Autor(a): Camila E.
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