[Deixa que eu Conto: Combate - Vol. 3, Maria Braga Canaan] Entre o cotidiano e o combate: a escrita como resistência
Resenha: Deixa que eu conto. Volume 3: Combate, de Maria Braga
Canaan, reúne microcontos e textos breves construídos a partir da observação do
cotidiano, da memória e das contradições que atravessam a experiência comum. A
própria autora situa o volume como continuidade de um percurso de escrita
iniciado anteriormente e assume, na apresentação, a intenção de preservar a
espontaneidade de sua produção, ao mesmo tempo em que reconhece um maior
cuidado na elaboração desta coletânea.
A escolha de Combate como texto de abertura e título do volume estabelece uma
chave de leitura para o conjunto. Em poucas linhas, a cena coloca uma mulher
diante de uma turma de quinta série, munida de objetos tão cotidianos quanto
inesperados para aquela situação. O combate, portanto, não aparece como uma
ideia abstrata: ele se materializa na rotina, nas responsabilidades, nas
dificuldades físicas e emocionais e na necessidade de continuar funcionando
apesar delas.
Os primeiros textos exploram justamente essa capacidade de condensação.
Hipotermia, A Preferida, Arquétipos, Ou Não? e O Vaso da Janela trabalham com
situações aparentemente simples que ganham outro sentido no desfecho. A autora
não desenvolve personagens ou acontecimentos de maneira convencional; prefere
interromper a narrativa no ponto em que uma informação altera a compreensão do
que acabou de ser lido. O efeito depende menos da explicação e mais da
capacidade do leitor de completar a cena.
Essa estratégia se mantém em diferentes registros. Há textos marcados pela
ironia, em outros momentos, a autora recorre ao humor e ao jogo
verbal. O humor, nesse caso,
não funciona apenas como distração: serve para deslocar o olhar sobre situações
de fracasso, contradição ou absurdo.
A coletânea também incorpora referências da cultura popular, da televisão, da
literatura, da mitologia e das redes sociais. Em O Isto ou Aquilo, por exemplo,
uma situação corriqueira é atravessada por uma referência a Gene Kelly; em
Pausa para um Suspiro, a experiência diante de uma série televisiva se
transforma em registro pessoal; em Partido Alto e Quimera?, personagens e
elementos da mitologia clássica são deslocados para uma narrativa marcada pelo
humor e pela imaginação. Essas referências não aparecem como ornamento erudito,
mas como parte do repertório cotidiano da narradora.
A partir da segunda metade, o livro assume de maneira mais evidente uma
dimensão autorreflexiva. A rotina doméstica, os boletos, o celular, o desejo de escrever e a
dificuldade de reservar espaço para si deixam de ser apenas circunstâncias e
passam a integrar a matéria literária. A autora transforma a vida ordinária em
assunto sem tentar convertê-la em algo extraordinário.
Nos textos finais, a escrita se torna ainda mais próxima da experiência diária.
Dor, cansaço, incerteza, maternidade, memória, esperança e a tentativa de
encontrar pequenas formas de felicidade aparecem sem serem organizados em uma
trajetória de superação convencional. Há, nesse percurso, uma mudança perceptível em relação aos primeiros textos: a
autora passa de microcontos fortemente dependentes da virada final para textos
em que a própria voz ganha espaço. A forma continua breve, mas a brevidade deixa
de estar necessariamente a serviço do desfecho e passa a acolher pensamentos,
registros de horário, lembranças e observações. É justamente essa ampliação que
sustenta a afirmação feita pela autora de que o volume está mais cuidado sem
abandonar a espontaneidade que caracteriza sua escrita.
📕Leve este livro para sua estante
Capa: brochura
Páginas: 120
Estilo: microconto, narrativa breve, crônica breve
Autor(a): Maria Braga Canaan
Editora: Costelas Felinas
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