
Resenha: Sem Prazo de Validade, de Marta Rocha, é uma obra
reflexiva e que se organiza em torno de uma mesma ideia: a experiência humana
não pode ser delimitada pela idade. O enredo toma o envelhecimento como ponto
de partida, mas amplia esse eixo para refletir sobre memória, perdas, escrita,
amizade, esporte, amor, espiritualidade e transformação pessoal. Em vez de
separar rigidamente os gêneros, a autora aproxima registros distintos para
construir um percurso de autoconhecimento.
Os textos são distribuídos como fragmentos de uma
trajetória. Alguns recuperam lembranças da infância, outros registram
acontecimentos recentes ou observações sobre o cotidiano, enquanto os poemas
condensam emoções que reaparecem sob diferentes formas ao longo do livro. Essa
alternância impede que a leitura se concentre em um único tema e evidencia que
as experiências dialogam entre si, formando um conjunto coeso pela recorrência
de determinados assuntos, especialmente o tempo, a identidade e a capacidade de
recomeçar.
Encontramos também uma relação constante entre
experiência vivida e reflexão. A autora parte de episódios pessoais para
discutir questões mais amplas, como o etarismo, a saúde emocional, os vínculos
afetivos e a necessidade de encontrar novos sentidos para a própria existência.
O texto preserva um tom confessional, mas procura transformar a experiência
individual em ponto de contato com o leitor, aproximando o relato
autobiográfico da crônica reflexiva.
A escrita também revela um movimento de amadurecimento ao
longo da obra. Nos textos iniciais, a autora concentra-se em afirmar seu desejo
de ocupar o espaço da escrita e explicar sua relação com a literatura. À medida
que o livro avança, essa necessidade de justificar a própria voz diminui. Os
textos passam a confiar mais na força das imagens, na construção das cenas e na
observação do cotidiano, permitindo que a reflexão surja naturalmente da
experiência narrada. Esse deslocamento torna perceptível uma maior segurança na
condução do texto.
Ao final, Sem Prazo de Validade reafirma seu título não
apenas como uma referência ao envelhecimento, mas como uma defesa da
continuidade da experiência humana. A escrita aparece como instrumento de
reorganização da memória, de elaboração das mudanças e de descoberta de novos
projetos, sugerindo que cada etapa da vida pode inaugurar outras formas de
criação, aprendizagem e pertencimento. [Cláudia Brino]
📕Leve este livro para sua estante -
Capa: brochura
Páginas: 128
Estilo: crônicas
Autor(a): Marta Rocha
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